May 19, 2012, 5:08 pm

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Mortos ficam amontoados após incêndio em prisão de Honduras PDF Print E-mail
Written by Redação, com agências   

Soldados e policiais hondurenhos retiraram corpos carbonizados da Penitenciária Nacional de Comayagua, empilhando-os em sacos pretos no lado de fora da prisão onde 350 pessoas morreram em um incêndio na terça-feira à noite.

 

 

Os familiares das vítimas se dispersaram durante a noite, mas os trabalhadores continuavam amontoando os corpos, que caíam uns sobre os outros com um ruído surdo. ”Os corpos estão carbonizados, e alguns estão amontoados”, disse o soldado Johnny Ordoñez, acrescentando que é difícil separá-los.

O incêndio, aparentemente iniciado por um detento, foi uma das piores tragédias carcerárias da história mundial, representando mais um triste recorde para Honduras, país que tem a maior taxa mundial de homicídios, segundo relatório da ONU no ano passado.

Em meio ao fogo, alguns dos cerca de 850 presos conseguiram escapar pelos tetos de zinco da cadeia, uma labiríntica estrutura com estreitos corredores a céu aberto e com muralhas de tijolos pintados de azul e branco. Mas, quando a imprensa foi autorizada a entrar, ainda havia sinais dos que não conseguiram escapar da penitenciária, onde havia um forte cheiro de carne queimada.

Um cadáver calcinado estava de bruços, com as pernas encolhidas numa posição fetal, e os braços esticados para o canto da cela. Dois policiais e um soldado apareceram para arrastá-lo, colocando-o na pilha de corpos. Perto dali, numa área recreativa, um violão jazia sobre um piso encharcado de sangue, ao lado de mesas de bilhar queimadas. Empilhados sobre carretas, os corpos eram enviados para um necrotério em Tegucigalpa, a capital, onde parentes aguardavam. ”Estou aqui pelo corpo do meu filho, preciso enterrá-lo, minha mulher e o resto da minha família estão esperando por mim”, disse o agricultor Octavo Aguilera, de 59 anos. “Não vou sair daqui sem ele.”

O Ministério Público disse que houve 359 mortos, mas a polícia afirmou que alguns presos dados como mortos podem ter fugido. Sobreviventes acusaram os carcereiros de ignorarem seus pedidos de ajuda, e relataram cenas horripilantes de pessoas consumidas pelo fogo dentro das celas. “Guardas, estamos queimando, estamos morrendo, abram as celas’, gritavam eles, mas os guardas não queriam ajudar, eles deixaram as pessoas morrerem”, disse o sobrevivente Antonio Valladares a uma rádio local.

O governador provincial disse que o incêndio foi iniciado por um preso que, por razões desconhecidas, teria queimado um colchão. Em frente à prisão, policiais olhavam impassíveis as dezenas de parentes e amigos dos presos, que atiravam paus e gritavam “assassinos”.

O incêndio matou mais de 350 detentos, muitos deles retidos e gritando de dentro de suas celas. A procuradoria Geral informou que 359 pessoas morreram no fogo que começou na noite de terça-feira.

A instalação penitenciária não era de máxima segurança e alojava mais de 800 prisioneiros, quase o dobro de sua capacidade. Muitos dos detentos cumpriam penas relacionadas com o crime organizado. O fogo teria começado depois que um preso ateou fogo a um colchão, segundo a governadora da província de Comayagua, Paola Castro, quem indicou que outro prisioneiro telefonou para ela angustiado, pedindo que avisasse os bombeiros. ”Ele e seus amigos escaparam da morte ao romper o teto do módulo. Ele me ligou pedindo ajuda para que os bombeiros fossem enviados e para que as celas fossem abertas, caso contrário todos morreriam devido ao fogo”, disse Paola em entrevista por telefone.

Também foi levada em conta a hipótese de um curto-circuito, mas o gerente regional da estatal Empresa Nacional de Energía Eléctrica (ENEE), Fidel Torres, afirmou que o incêndio não poderia ter sua origem nos cabos de baixa tensão no interior do presídio porque estavam em bom estado.

Depois que o fogo foi controlado na madrugada de ontem, muitos corpos carbonizados foram encontrados no interior das celas, a maioria deles irreconhecível, segundo as autoridades. ”É um cenário terrível que se observa na prisão”, disse à Reuters a chefe da promotoria do Ministério Público, Danelia Ferrera, desde o interior da penitenciária.

Desespero e morte

Esse é um dos piores incêndios ocorridos em uma prisão na América Latina. Muitos presos morreram carbonizados, retidos em suas próprias celas, segundo testemunhas e a imprensa. ”Ouvimos gritos das pessoas atingidas pelo fogo”, disse um preso a jornalistas, mostrando os dedos que fraturou em sua fuga do incêndio. “Tivemos que empurrar para cima os painéis do teto para sair.”

O país, a terceira nação mais pobre da América depois de Haiti e Nicarágua, tem o maior número de homicídios do mundo, com 82,1 assassinatos a cada 100 mil habitantes, segundo a Organização das Nações Unidas, e sofre com a violência dos cartéis do narcotráfico, gangues juvenis e prisões superlotadas.

A delinquência aumentou pela presença de dois cartéis de drogas do México, que estenderam seus negócios para várias nações da América Central, caminho das drogas para os Estados Unidos. Ajustes de contas são frequentes entre gangues, conhecidas como ‘maras’, que trabalham para os cartéis e isso se repete dentro das prisões, que também são palco de motins.

Enquanto familiares esperavam no lado de fora da prisão, os corpos eram preparados para serem levados a Tegucigalpa, onde médicos forenses terão um árdua trabalho devido à falta de funcionários e ao estado dos corpos. ”Vamos recorrer à busca de impressões digitais nos casos possíveis e a outros recursos, como históricos dentais dos presos, ou mesmo se familiares puderem identificar alguma tatuagem ou algo particular em seu parente, ou mesmo o uso de DNA”, disse Ferrera.

O governo do Chile anunciou o envio de 14 especialistas, entre antropólogos, tanatologistas, peritos forenses e bioquímicos para ajudar a identificar as vítimas do incêndio.

Autoridades carcerárias suspensas

Em meio à confusão sobre o número de mortos, a mídia local indicou que os mortos e desaparecidos somavam 402 pessoas. Os desaparecidos seriam presos que escaparam durante o incêndio.

O presidente de Honduras, Porfirio Lobo, disse em rede nacional que havia demitido de seus cargos os funcionários responsáveis pela prisão de Comayagua e a administração de prisões de todo o país para que a investigação seja transparente.

Centenas de pessoas esperavam desesperadas para conseguir informações sobre seus familiares presos, horas depois de ter lançado pedras contra policiais no lado de fora. Os agentes responderam com bombas de gás lacrimogêneo.

Em maio de 2004 numa prisão de San Pedro Sula, a segunda maior cidade de Honduras, morreram 107 presos, e em 2003 faleceram 78 pessoas numa prisão da cidade de La Ceiba. Honduras tem 12.500 presos, embora suas penitenciárias tenham sido construídas com uma capacidade para 6.000 pessoas.

O diretor para a América da organização Human Rights Watch, José Miguel Vivanco, disse que Honduras deve revisar com urgência seu sistema penitenciário. ”As trágicas mortes de centenas de presos, um dos piores incidentes deste tipo na região, é a última instância resultado da superlotação e das pobres condições da prisão, dois velhos problemas em Honduras”, disse Vivanco em comunicado.

Autoridades de Segurança disseram que os 475 sobreviventes que ainda estão na prisão serão levados em breve para uma unidade militar perto do local.

 

 



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